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  • Mari Dalla

Ausência do instagram

Eu sei que sumi e devo explicações. Tô aqui pra isso. Serei breve e sem qualquer pretensão de esmiuçar cada parte de tudo o que sinto, mas talvez você me entenda um pouco.


Dia desses, li numa crônica do Rubem Braga, a seguinte frase: "Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus".


E nos dias que permaneci ausente, era mais ou menos assim que eu me sentia. Fiquei murcha, sem graça, sem sal e sem cor. Tentando abafar tudo aquilo que aperta o coração, estancar tudo aquilo que mortifica um pouquinho a alma, me calei. O silêncio realmente torna tudo menos penoso; Rubem Braga é um homem sábio e eu posso provar.


Estamos todos enfrentando um mundo pandêmico e doente, eu sei, mas cada um sente e sofre de um jeito; cada um com sua realidade, a seu modo, sofre. Ou não. Mas eu já desisti há muito tempo dessa ideia de tentar deslegitimar a dor do outro.


Foram dias de reclusão porque, de fato, precisei. Abrir o instagram se tornou custoso e eu, sinceramente, achava tudo errado ali. "Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial", cantava Caetano ao fundo enquanto eu rolava o feed, constrangida e infeliz. Entendam: o problema era todo meu, e não dos outros. Considerei até apagar a minha conta de vez e dizer o tal adeus que aquela velha crônica aconselhou, num movimento de luto e protesto. De nada adiantaria, então me poupei o trabalho. E me desculpe ser assim tão explícita, mas eu preciso despejar essas palavras aqui pra ver se me livro de vez dessa carga, afinal, escrevo pra repartir e também pra me encontrar. Sigo tentando.


No mais: eu tô bem, sei que deixei alguns de vocês preocupados, mas fiquem tranquilos, já passou. Eu acho. E antes que alguém pense alguma coisa torta a respeito do que compartilho aqui, rasgando o meu coração: não, eu não estava sofrendo por estar ENTEDIADA EM CASA. Não tive um minuto sequer de tédio porque sei do privilégio que tenho e gratidão não falta por aqui. Eu apenas gostaria que o mundo-pós-tudo-isso não voltasse a ser o que era. Eu mesma não aceito voltar a ser, fiz um trato comigo.


Por ora, me mantenho a lembrar as coisas douradas da vida. Também sou boa nisso. Vou até a sacada, imagino um dia quente de sol enquanto cantarolo uns versos afinal, quando "tudo demora em ser tão ruim é cantando que eu mando a tristeza embora". Salve Caetano! Melhor companhia para o meu universo em desencanto.






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